A ligação fora cortada. As palavras do outro lado da linha estavam confusas e incompreensíveis, ainda assim, a mensagem fora clara quando ouviu "...me distraia." Não necesssitou de mais nada, apenas procurou o meio mais rápido para ir onde precisavam dela e foi. Era o amanhecer de um novo dia, uma renovação de esperanças e vontades, assim ela acreditava quando acordava toda a manhã, entretanto, nesta manhã em particular ela não sentia tal renovação, só sentia uma inquietude em seu peito que a fazia gritar para o motorista acelerar, ela não tinha, literalmente, tempo para perder.
Pisou suavemente no chão de madeira claro, procurando fazer o menor barulho possível mas mesmo se tivesse feito um grande barulho, ele não notaria dado a tristeza que parecia governar o seu ser. Sentado no chão com a cabeça apoiada no sofá de dois lugares ele olhava para a parede a sua frente com seu olhar perdido e sua face vermelha, consequencia de tanto chorar. Dizem que meninos não choram, mas a mentira que aí vive é mais profunda do que se pensam. Eles choram, como qualquer outro ser humano, sofrem, sentem dores provindas do seu emocional, eles, simplesmente, também choram. Por isso, vendo aquela cena, ela não se assustou, apenas andou o mais rapidamente possível até ele. Sentou-se e passou seus braços ao redor do corpo dele, fazendo notar-se.
"Você veio." Ele disse sem deixar de olhar a parede a sua frente. Sua voz era rouca e falava em baixo tom como se fosse difícil falar qualquer tipo de palavra.
"Você tinha dúvidas que eu viria?" Um sorriso sarcástico fora implantado nos lábios dele ao ouvi-la falar.
"Não. Não tinha." Ele respondeu. As mãos dela acariciavam sua face, seus cabelos e, diante de tais carícias, ele apenas se rendeu e encostou seu rosto do pequeno vão entre o pescoço e o ombro dela. Poucos segundos depois, ela sentiu um líquido quente escorrer e um barulho provindo dos lábios dele mas nada disse, apenas continuou com suas carícias o deixando chorar.
Sentiu a luz contra suas retinas e abriu seus olhos. Seu corpo estava dolorido e, ao olhar ao redor, descobriu a razão. Estava sentada na mesma posição que ficara ao chegar mas ele já não estava mais em seus braços. O desespero começou por correr em seu ser, sua respiração ficara acelerada rapidamente e ela não pensou duas vezes em procura-lo em cada comodo. Poderia parecer drama, mas ela o conhecia e conhecia o que ele poderia fazer.
"Não, por favor." Ela suplicou em voz baixa e trêmula ao encontra-lo. As pílulas estavam em sua frente, milhares e milhares em um pequeno frasco de vidro. Ela sentiu o coração acelerar quando ele se virou a olhando no fundo dos olhos. O verde encontrou o castanho. A dor encontrou o desespero.
"É a única saída." Ele respondeu. Ela balançou a cabeça negativamente controlando as lágrimas que pareciam querer sair por seu rosto. Aproximou-se com calma e cautela sentindo que, a cada passo, era ainda mais difícil controlar a saída das lágrimas.
"Não. Tem outra saída. Nós vamos encontra-la...juntos. Eu ainda não sei qual é, mas tem. E vamos encontra-la, eu prometo a você." Ele deixou o sorriso sarcástico invadir seu rosto, como na noite passada, outra vez. E tal sorriso fez com que as lágrimas que tanto lutava para não descerem por seu rosto, se libertarem.
Com tristeza, por faze-la chorar e por tudo o que estava acontecendo, ele a encarou. Dizia, apenas com seu olhar, que não havia outra saída. Pegou a maior quantidade de pílulas que podia e colocou em sua mão. E ela fez o mesmo.
"O que você está fazendo?" Ele perguntou com leve surpresa.
"Se você o fizer, eu também o faço. Você vai, eu irei junto com você." Ela respondeu. Ele a olhou incrédulamente.
"Não. Pare de drama. Você não pode fazer isto por mim. Eu não vou deixar. Então suma daqui e pare com isso." Ele disse duramente para ela. Ela apenas abriu um sorriso, ainda com as lágrimas caindo em seu rosto, e engoliu uma pílula. Engoliu a segunda e a terceira mas quando chegou na quarta ele segurou seu pulso a parando.
"Se você for, eu vou com você. Eu não aguentaria viver sem você e uma hora, depois de tentar viver sem você, eu faria isso. Então...vamos logo com isso. Se esta é a única saída que nos resta, então vamos logo com isso." Ela não estava brincando, ele conseguia ver no olhar dela. Era determinado.
Ele parou por um segundo, tentando refletir, mas a reflexão não durou muito. A dor, a tristeza logo deram lugar a ela e ele apenas começou o que disse que o faria. Ela olhou para ele, lhe dando confiança e, antes de continuar, apenas lhe disse.
"Eu te vejo no Inferno."
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